MEMORIA[IS] A RESPEITAR...
Há 9 anos
Estou a dar um passeio e no caminho que venho a percorrer tenho dado conta que as pessoas não têm um sorriso na cara, andam de cabeça voltada para o chão e com um olhar constante de desconfiança. Começo a dar conta que o único que está diferente sou eu, sou o único que tenho um sorriso na cara, sou o único que olho em frente, sou o único que cumprimenta quem passa... Será que estou doente?
Aqui estou eu mais uma vez para te fazer o meu pedido de natal. Eu não sei muito bem o que te pedir, por isso, tive que vir à procura e aqui estou eu sentado no shopping num daqueles bancos que estão espalhados pelos corredores. Não precisei de muito tempo para começar a ver pessoas carregadas com sacos cheios de embrulhos e crianças a apontarem aos pais constantemente as montras. Estão todos preocupados em comprarem alguma coisa para oferecer neste natal aos que lhes são mais próximos ou àqueles de quem não nos podemos esquecer. Fica sempre bem, não é pai natal? Todos estão preocupados em arranjar qualquer coisinha, bonita de preferência, para depois no natal poderem retribuir uns aos outros.
Quinze de Outubro de dois mil e quatro, são oito horas e como todos os dias estou no autocarro a caminho da faculdade. Tal como tantas outras manhãs vejo as mesmas pessoas, ouvem-se conversas de “entreter” que não colocam ninguém em causa. Como tantas outras manhãs entro e saio do autocarro nas mesmas paragens e as mesmas pessoas viajam comigo, lá de vez em quando aparece uma nova no entanto, ninguém lhe presta atenção, a não ser que esteja a incomodar, estamos tão preocupados com a nossa vida que não temos tempo para olhar à nossa volta. Esta manhã tudo se preparava para ser mais uma viagem como todas as outras, engano o meu... Ao olhar pela janela, do meu já conhecido autocarro, deparo com um “livro de parede” onde várias inscrições estavam presentes, de entre uma delas uma chamou-me à atenção: “foste um bom robot hoje?”. Vim o resto da viagem a pensar nesta questão, questão que não devia estar só inscrita numa parede mas em letras bem grandes às portas das nossas escolas, shopping’s, trabalhos, etc. O dia ainda agora começou e tenho todo o dia pela frente. Está nas minhas mãos ser um robot ou ser uma pessoa relacional, disposta a quebrar a norma, o método do dia a dia com o objectivo de me relacionar para assim crescer. Ao olhar para “ontem” dou conta que fui um robot exemplar: levantei-me, vim para a faculdade, fiz todos os trabalhos propostos e fui dormir. Ao olhar para “ontem” dou também conta que podia ter sido uma pessoa relacional, não é que não o tenha sido mas bem de certo que podia ter procurado sê-lo mais, em vez de estar à espera das oportunidades podia eu tê-las criado. Logo, ao ir para casa, quero poder dizer um “NÃO” bem grande à questão que o “livro de parede” me coloca. Tenho a certeza absoluta que não vai ser fácil, vou ter que lutar contra muitas pessoas, remar contra a maré. Tenho a consciência absoluta que tudo à minha volta me vai levar para o método robótico. Poucas vão ser as pessoas que como eu querem ser diferentes, que querem tal como eu poder dizer “NÃO” ao “robotismo” que a sociedade de hoje nos coloca. Todos nos fartamos de queixar de como o mundo e a nossa sociedade actual está; no entanto, são poucos os que têm a coragem para olhar a vida de frente, olhos nos olhos e dizer: eu não vou ser mais um robot, vou começar a ser diferente. Volto a dizê-lo: “eu sei que não vai ser fácil” mas também quem quer ter uma vida fácil nunca vai chegar a viver, vai sim existir para o mundo pois tem que se adaptar, moldar e acima de tudo calar mesmo quando todo o seu ser diz o contrário.
Não deves recusar o esforço, porque ele é um caminho. Num lugar que terás de descobrir – que fica sempre alto e longe – existe para ti uma lagoa meio escavada na rocha, com relva muito verde em parte das margens e cantos alegres de pássaros calmos. Encontram-se lá os que amas, fortes e generosos. Sorridentes. Há sol e também a sombra de altas árvores. Por cima, apenas o céu, à distância de um último salto. Não é um destino inevitável, mas um lugar onde és esperado e que podes, ou não, alcançar, conforme a medida do teu desejo. Só quando lá chegares terás alcançado toda a tua envergadura. Só lá te encontrarás contigo mesmo. Existes para chegar a esse lago. Os teus olhos são capazes de pousar nas suas águas limpas, que reflectem já o céu que lhes há por cima. Não se pode querer mal aos caminhos que conduzem a lugares assim, embora sejam escarpados e se torne impossível evitar ferimentos e cansaços quando se segue por eles. Se o teu desejo de chegar for grande, nenhum esforço te parecerá demasiado penoso. E, embora vás a caminho, terás sempre contigo qualquer coisa que é já de ter chegado. Talvez uma certa forma de olhar, resultante daquela luz que se acende por dentro quando nos pomos a caminho dispostos a tudo o que aparecer. E nem haverá problema se a morte te encontrar assim, ainda no gesto de subir: já tens em ti o teu lago, na imagem dele que te fez partir. Não deves recusar a dor, porque ela te constrói, te marca os limites e te faz crescer por dentro dos teus muros. Sem ela, não passarias de um projecto do homem que hás-de ser. Ela edifica-te os músculos, a cabeça e o coração, e não existe outra maneira de chegares a ser aquilo que deves vir a ser. Se não sofresses não haveria ninguém dentro de ti. No cumprimento sério dos teus deveres, encontrarás a dor na forma de esforço e de cansaço. Mas pode muito bem ser que, tarde ou cedo, ela te procure sem disfarces e te faça chorar. É frequente que ela se apresente assim, numa nudez que parece cruel e faz lembrar facas ou agulhas. Nem por isso te deves assustar ou desistir. Quando te parecer que tudo está perdido, ri-te, se puderes. É que te estão a oferecer um degrau que te deixará incomparavelmente mais acima no caminho. Deves ver nisso o sinal de que – por qualquer razão – é tempo de andares depressa. Sobretudo, não te queixes. Há assim metamorfoses que parecem aniquilar, mas não passam de formas de fazer surgir a borboleta. Não te queixes, porque receberás umas asas e cores novas. O teu lago – de onde de tão perto se pode olhar o céu – tem um preço que tu saberás dar e não é tão grande assim.