Querido Pai Natal,

Estive a assistir a este cenário, até que, decidi ir a uma loja ver o que se passava lá dentro. A loja estava cheia; as prateleiras convidavam a pegar nas coisas, a música ambiente era de natal, nos preços havia letreiros que diziam: “o mais barato”; uma loja perfeita. Enquanto vagueava pelos corredores da loja, dei comigo a ouvir conversas entre as pessoas que só falavam nas prendas que já tinham comprado e nas prendas que ainda tinham que comprar. No entanto, houve algo que me chamou a atenção no meio daquela confusão de toda de prendas para um lado e para outro. Sabes o que foi pai natal? Foi um adolescente, não teria muito mais que catorze ou quinze anos, que virado para a sua mãe dizia: “Isso não, eu não me identifico, ele também não vai gostar”. Ele repetia constantemente até que a mãe já irritada com ele pergunta-lhe: “Mas afinal, que prenda tu lhe queres dar?” Ele olhou para a mãe com os olhos cheios de água e a soluçar: “Não lhe quero dar nenhuma prenda. Quero-lhe dar um presente…” Devias ter visto a minha cara quando ouvi aquilo. Todos os meus músculos faciais moveram-se de forma a formarem um sorriso rasgado; os meus olhos ficaram também cheios de água de tanta felicidade que tinha dentro de mim; vi-me obrigado a sair da loja. Aquele rapaz fez luz dentro de mim; fez-me compreender o que eu queria para este natal. Ele disse-me qual devia ser o meu regalo para comigo mesmo.
Desculpa pai natal mas já não preciso de ti. Eu descobri qual é o regalo que quero e como o conseguir… Nas palavras daquele adolescente eu descobri a diferença entre dar uma prenda e um presente. Onde é que eu tinha a cabeça para ainda não ter percebido que o oferecer uma prenda ou um presente, parte sempre da pessoa que dá e nunca da pessoa que recebe… Sempre que regalo alguém com uma prenda, fico preso a uma lógica egoísta: “Eu dei, agora tenho que ser retribuído”. Fico preso a esta lógica e caso não seja retribuído, fico muito provavelmente chateado e desapontado. Quando regalo alguém com um presente, faço-me presente junto dele. Pouco me importa se vou ser retribuído ou não; o que importa é que eu me quis fazer presente junto daquele a quem eu acabo de regalar. Eis aqui o grande segredo que muda tudo quando oferecemos a alguém uma prenda ou um presente. Eu não quero ficar preso a esta lógica do “toma lá” e fico à espera do “dá cá”… Quero sim começar a viver do fazer-me presente.
Neste natal, pai natal, já não preciso de ti. Neste natal em que tudo me entra pelos olhos e me chama a ser igual a todos os outros, eu quero ser diferente; eu quero ser como aquele adolescente que se quer fazer presente; quero que o meu natal seja diferente. Quero fazer-me presente neste natal, junto de todos os que amo. Quero neste natal, oferecer como presente a minha vida aos que me rodeiam. Como? Ainda não sei.
Afinal até sei. Tudo o que preciso está dentro de mim: as palavras, os gestos, as expressões, as letras; tenho como me fazer presente; tenho como me fazer presente e com eles viver o mistério do natal.
Quero que as pessoas sintam a minha presença neste natal. Não só neste natal. Sempre. Quero com o meu presente, tornar-me presente sempre; quero que sempre que recordem o meu presente me sintam lá, junto deles.
Este é o meu desejo para este natal. Este é o meu próprio presente de natal. Não sei se será o desejo de mais alguém. Talvez seja… É de certeza pelo menos do meu “amigo” do shopping.
Obrigado “amigo”. Sem saberes o meu nome e sem mesmo tu o saberes, deste-me um presente antecipado neste natal. Foste o meu pai natal.
Pai natal, desculpa eu estar a dizer-te estas coisas todas mas quem sabe se podias distribuir esta carta pelas casas onde vais este natal… Uma coisa eu sei; o natal de muitas casas podia ser mais rico, a felicidade podia ser maior. Tenho a certeza que em muitas casas apesar de a árvore ter menos prendas, a casa estaria muito mais cheia, estaria com muitas mais presenças.
Entendes-me, não entendes pai natal? Eu já não preciso de ti pai natal mas há ainda quem precise de encontrar um pai natal na sua vida.
Bom Natal.
PS: Já me esquecia de dizer uma coisa: não passes cá por casa; vai a outra casa que precise mais de ti. Agasalha-te bem. À noite faz frio e tu já não és um jovem.
Bom Natal outra vez.
Luís Sousa